Oportunidades Mas Com Cautela

Os temores quanto à situação das dívidas de países europeus eleva a aversão a risco e faz com que uma corrida a ativos ditos seguros, derrube cotações de ações e commodities. Esta situação não tem data para terminar, maneira rápida de se consertar, ou números que demonstrem melhoras a curto prazo. Autoridades dos países envolvidos Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, e até Itália, precisam ser ouvidos com credibilidade, e as autoridades da Comunidade Econômica Européia, precisam transmitir esta credibilidade. Os investidores vêem a situação americana de desemprego como algo que demorará a se resolver, mas existem medidas e números mensais que comprovam ou não melhoras, é algo mais “tangível”. Os investidores vêem a situação chinesa de aperto monetário como algo necessário no curto prazo, de conseqüências ainda pouco determinadas, mas entendem que o país busca algo também mais “palpável”. O que existe hoje é uma nova crise de confiança, cujo aperitivo foi Dubai, que encontrou investidores mais otimistas com a recuperação da economia mundial, e logo com espaço para realização de lucros. Os reflexos por aqui serão sentidos, existem novos fatores internos, mas acredito que mais uma vez, o reflexo não será tão grande.

Na Ásia as bolsas tiveram um dia de pequena recuperação, com exceção do Japão. As altas da moeda local com relação ao euro e dólar preocupam as empresas exportadoras. A queda de 0,2% leva o principal índice da bolsa ao ponto mais baixo em dois meses. Na Coréia alta de pouco mais de 1%, em Hong Kong e China altas entre 0,4% e 0,8%, com sessões sem comportamento definido e muita volatilidade. Segundo analistas locais o dia de hoje não foi de recuperação e sim de ajustes. Na Austrália queda de 0,4% com os bancos liderando as baixas, assim como ocorreu ontem nos EUA, mas as empresas mineradoras tiveram um comportamento melhor. A BHP, maior mineradora do mundo, e maior concorrente da Vale do Rio Doce anuncia seus resultados amanhã antes da abertura da sessão e analistas locais estão otimistas.

Na Europa as principais bolsas abriram com pequenas altas, entre as baixas do setor financeiro e as altas de empresas de commodities, principalmente mineradoras. O euro abriu estável em relação ao dólar e em ligeira queda em relação ao iene. O preço do barril de petróleo tem pequena alta em função das baixas temperaturas observadas nos EUA e Europa, mas esta reação não se sustenta de acordo com analistas do setor. As expectativas dos investidores recaem sobre declarações ou demonstrações de confiança e otimismo sobre as dificuldades nas contas de alguns países do continente. De acordo com relatórios de instituições financeiras os meses de abril e maio serão importantes para a Grécia pelo vencimento de títulos e necessidade de refinanciamento. Espera-se alguma antecipação por parte dos governos e autoridades monetárias do continente para resolver a situação. Existem alguns indicadores e resultados a serem divulgados nos EUA que também trarão influência nos mercados, mas as atenções estão voltadas para a confiança dos investidores.

Nos EUA a agenda começa a se movimentar. Hoje será divulgado às 13 horas os estoques no atacado, com expectativa de +0,5% contra +1,5% do mês anterior. Não é um indicador de grande importância, e somente um número muito diferente do estimado pode mexer com o mercado. Serão divulgados também resultados de empresas onde destaco Coca-Cola, Disney e Baidu (concorrente chinês do Google). Ontem na última hora da sessão o Dow Jones recuou mais de 100 pontos, fechando abaixo dos 10 mil pontos, a primeira vez em três meses, completando uma queda de 7,6% sobre o ponto mais alto desde a recuperação do mercado em março de 2009. Os demais índices, S&P500 e Nasdaq tiveram o mesmo comportamento e também estão com quedas entre 8% e 10% desde o melhor momento após a recuperação. Analistas locais colocam que estas quedas podem estar próximas do fim, dentro de uma análise técnica, no entanto, uma crise de confiança não deve ser tratada com números, logo ainda poderia, de acordo com análises de alguns bancos, haver espaço para novas quedas.

Por aqui a observação do que acontece nos mercados internacionais é fundamental. Existem fatores internos importantes, mas todos dentro de parâmetros traçados, sem possibilidades de curto prazo extrapolarem as previsões. Logo toda a volatilidade se resume aos reflexos externos. Não há dúvida que à medida que as eleições se aproximem especulações de atitudes ou declarações podem trazer movimentação para as cotações de ativos, mas nada muito diferente do que se já conhece.
O mercado de juros aguarda indicadores inflação para entender e medir a sazonalidade natural do período, acrescida das dificuldades com o clima e a incerteza com a cotação do dólar.
O mercado de câmbio observa as movimentações externas e o reflexo no fluxo de recursos para o mercado financeiro, o apetite por investimento direto e as possibilidades de antecipação de financiamento dos déficits em conta corrente projetados para 2010 e 2011.
O mercado de ações olha os fatos internacionais, e ao mesmo tempo busca oportunidades a partir dos resultados anuais das empresas. O momento é de cautela, mas como já ressaltei algumas boas oportunidades podem surgir. Conforme ressaltado acima confiança não se recupera com indicadores de curto prazo, logo a observação de comportamentos, aliada a bons preços, pode se traduzir em uma estratégia vencedora de médio prazo. No início de 2010 havia uma dúvida muito grande sobre o quanto o Ibovespa poderia ter de ganho já que 2009 foi de uma recuperação acima do esperado, estamos vendo uma chance agora, dentro das mesmas expectativas de que o Ibovespa pode alcançar 80,0 mil pontos, de se obter um bom ganho.

Mauro Giorgi é gestor de recursos autorizado pela CVM

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