Cautela e Atenção
Os investidores aguardam indicadores das economias mais desenvolvidas para a revisão mensal do cenário de curto e médio prazo. As reuniões do BCE e BOE hoje, além dos indicadores de emprego nos EUA, são fatores fundamentais para novas premissas. Assim o movimento dos mercados fica menor e as variações em torno de notícias corporativas ou de comentários e análises de renomados economistas. Não acredito que haja grandes mudanças nos números, mas é importante observar que se estes parecerem iguais ou melhores o sentimento ruim dos últimos dias pode se dissipar aos poucos. Ao contrário, pode agravar a realização de lucros e passar a ser uma tendência de baixa de curto prazo. Os investidores devem ter atenção não só nos grandes números que estão por ser divulgados nos EUA, mas se há algum sinal de manutenção de desemprego ou melhora na remuneração dos trabalhadores, primeiros sinais de que a situação pode melhorar até o fim do ano.
Na Ásia os investidores se mostram bem mais cautelosos que os demais ao redor do mundo. A volatilidade do dólar mantém as ações de exportadoras sem tendência definida; a apreensão com as medidas de política monetária na China, sem manifestações públicas das autoridades, mantém os investidores com posições de curtíssimo prazo; e as notícias corporativas, em especial sobre o elevadíssimo recall e o resultado ruim da Toyota, tiram também as compras de longo prazo de um importante setor da economia regional. No Japão a baixa foi próxima 0,5%, na Coréia o principal índice se manteve estável, em Hong Kong baixa superior a 1,5%, na China baixa de 0,3% e na Austrália de 0,5%.
Na Europa, notícias corporativas mexem com a abertura dos negócios, enquanto investidores aguardam as decisões e declarações do Banco Central Europeu e Banco da Inglaterra nas suas reuniões mensais. O resultado da Shell veio abaixo das expectativas e também trouxe perspectivas fracas, enquanto Vodafone e British Petroleum foram na direção contrária. A melhora na cotação do dólar fez com que as commodities abrissem o dia em queda, e o preço do barril de petróleo não se manteve acima dos US$ 77.00 como ontem. As decisões dos BCs do continente serão as de manutenção das taxas, mas mais uma vez as declarações são fundamentais. Ajudas e subsídios continuam em pauta, recuperação econômica e inflação, são o segundo assunto mais importante, e finalmente e também com igual importância, algum comentário sobre a situação de Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Os investidores também terão indicadores americanos para observar, além de resultados de empresas.
Nos EUA os investidores terão uma agenda com indicadores importantes, em mais uma “preparação” para os números mais aguardados a cada mês, os da criação de vagas e desemprego. Às 11:30 serão divulgados o número de pedidos de auxílio desemprego, com expectativa de 455 mil, contra 470 mil da semana passada, e o indicador de produtividade do trabalhador, exceto do setor agropecuário, com expectativa de 6,5% contra 8,1% do trimestre anterior. São números importantes para o mercado financeiro, principalmente o primeiro, e para a economia, principalmente o segundo, pois pode trazer alguma expectativa para redução do desemprego no médio prazo. Às 13 horas será divulgado o índice que mede as encomendas as fábricas, com expectativa de 0,5% contra 1,1% do mês anterior, como é um número que se refere a dezembro, a divulgação do PIB do quarto trimestre tira parte da importância deste indicador. Entre os resultados a serem divulgados destaco Avon, Bunge, Clorox, Kellogg, Mastercard, NCR, e Sarah Lee.
Aqui a agenda é fraca, com a divulgação da venda de veículos como sendo o principal número do dia. O governo ontem anunciou a redução de parte do imposto incidente no preço da gasolina e do álcool, buscando mais uma maneira de reduzir o impacto da alta do álcool na inflação. O movimento é sazonal, pois vai até a entrada da safra de cana-de-açúcar no final de abril. Algumas notícias corporativas importantes nos jornais podem influenciar empresas no mercado, como a intenção do governo de cobrar um preço baixo pelo acesso a internet de banda larga, influenciando o setor de telecomunicações que tinha neste mercado o maior potencial de crescimento; a notícia da Caixa Econômica Federal ter a intenção de lançar um cartão de débito e crédito com a sua “bandeira”, na linha de criar concorrência com as empresas que dominam este mercado e elevam os preços dos serviços; e a notícia de que o Grupo Votorantim adquiriu participação relevante na cimenteira portuguesa CIMPOR, alvo de ofertas de empresas brasileiras.
O mercado de juros observa a movimentação do governo para não permitir uma elevação da inflação além da sazonal de início de ano, ao mesmo tempo em que monitora novas “farpas” entre o Ministério da fazenda e o BC sobre taxa de juros. O mercado de câmbio além de manter a atenção no mercado internacional sabe que a política monetária é diretamente ligada a entrada de recursos externos, logo mantém apostas de curto prazo, não arriscando tendências agora.
O mercado de ações com a volatilidade em alta e o movimento de negócios ainda na casa dos R$5,8 bilhões mostra muita cautela. Entrada de recursos, indicadores americanos, notícias corporativas e inflação/juros, são assuntos muito importantes para manter apostas de médio prazo, sem que haja alguma sinalização mais forte. Assim entre hoje e amanhã, acredito que a cautela e a observação serão a tônica do mercado.
Mauro Giorgi é gestor de recursos autorizado pela CVM