Muitos Assuntos + Muitos Detalhes = Volatilidade
Preocupação com o fato de que a recuperação econômica vista até o fim de 2009 possa não ser a saída total da crise de 2007/8 é a tônica dos últimos dias e permanecerá assim até que se tenha percepção de que o otimismo do último trimestre de 2009 não encontra terreno fértil no primeiro de 2010, mas também um pessimismo exagerado agora perdeu espaço. O período de notícias ruins era de se esperar, afinal de contas muitas vezes foram feitas perguntas sobre a velocidade da recuperação da confiança e do preço dos ativos, sem o natural respaldo dos fundamentos macroeconômicos. O déficit fiscal americano terá novo recorde em 2010, países europeus como Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha, estão sob a mira de investidores e credores, o aperto monetário na China e reforma do sistema financeiro, são assuntos complexos que trarão oportunidades e turbulências aos mercados. Os investidores devem redobrar cautela e observar a movimentação das moedas para buscar alguma explicação para o preço dos ativos.
Na Ásia a semana começou com comportamentos mistos, mas mantendo a incerteza e a volatilidade. No Japão e na Coréia após uma abertura em baixa, os principais índices fecharam com pequenas altas, com investidores buscando bons preços após as quedas. Em Taiwan nova baixa com o principal índice atingindo o ponto mais baixo em 2 meses. Em Hong Kong alta também em meio a bastante volatilidade e sem tendência definida no curto prazo. Na China baixa de cerca de 1,6% com as ações de empresas siderúrgicas e de commodities liderando o movimento. Declarações de autoridades do país em Davos, no Fórum Econômico Mundial, colocaram dúvidas sobre a intenção de produção de aço e cimento no país nos próximos anos. Na Austrália relatórios sobre geração de empregos trouxeram preocupação sobre o crescimento da economia, fazendo a bolsa passar a trabalhar no negativo na segunda metade da sessão. Ações dos setores de commodities também tiveram quedas importantes que podem se refletir aqui.
Na Europa as principais bolsas abriram em baixa, na primeira hora da sessão ainda sem importância, com o setor financeiro ainda concentrando atenções na ponta de venda. As baixas das commodities na China e na Austrália pesam, mas a possibilidade de novo recorde de déficit fiscal nos EUA mantém sob pressão o dólar, e podendo elevar a cotação das commodities. O preço do barril de petróleo abriu com pequena baixa, entre a expectativa de menor consumo e as temperaturas baixas nos EUA. Ao redor de US$ 73.00 os primeiros negócios do dia. Existem indicadores a serem divulgados hoje no continente e nos EUA, além do período de divulgação de resultados de empresas, logo o dia será importante para observação dos investidores. Outro ponto que preocupa a Europa é a elevação do risco de países já chamados de PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, e Espanha) e que pode fazer com que haja alguma reação em conjunto da Comunidade Européia assim como do BCE. Ainda é cedo, mas os comentários em Davos não eram positivos.
No meio da temporada de divulgação de resultados, na expectativa do envio do orçamento para 2010 pelo executivo para o Congresso e com novos números para compor cenários de médio prazo, os investidores têm muito para observar e ter cautela. Hoje serão divulgados os índices de gastos e renda pessoal, com expectativas de 0,3% para ambos, contra 0,5% e 0,4% do mês anterior respectivamente. São números importantes, mas se referem a dezembro e após a divulgação da prévia do PIB do quarto trimestre, perderam parte de sua importância. O índice de gastos com a construção civil também se encaixa neste perfil e tem a expectativa de -0,3% contra -0,6% do mês anterior. O ISM Índex que mede a atividade manufatureira tem mais importância por já se tratar de janeiro, e tem a expectativa de 56,7 pontos contra 55,9 pontos do mês anterior. Entre os resultados a única empresa que compõe o Dow Jones é a Exxon que divulgará seus números após o fechamento da sessão.
Por aqui a agenda não traz novidades, o saldo mensal da balança comercial e o relatório Focus do BC. Os investidores permanecem atentos aos índices de inflação para confirmar a sazonalidade ou para observar alguma mudança de patamar para justificar preocupações com o nível dos juros de longo prazo.
O mercado de câmbio é outro ponto que permanece sob muita observação dos investidores. Os que acreditam que seja um ajuste definitivo olham as contas externas e a aversão ao risco em função dos países com problemas, e projetam a moeda americana acima de R$1,85 ao longo do primeiro semestre. Os que acreditam que o ajuste é passageiro olham o déficit americano e a sazonalidade da balança comercial, apesar de projetarem redução do superávit para 2010. Seria cedo para “apostar” em uma das “correntes”, mas vejo ainda muita fragilidade na moeda americana, então fico mais ao lado de quem acredita que seja um ajuste passageiro. No curtíssimo prazo, os fatores negativos pesam para uma cotação mais forte da moeda americana, sempre contando com as compras do BC, até quando?
O mercado de ações sofre pressões de todos os lados. A liquidez não é das melhores nas últimas sessões, revelando o temor de novas posições, e ao longo das sessões temos períodos de fortes negociações, com pressão dos vendedores. Os investidores externos fecharam o mês de janeiro com saída de recursos. Duas explicações, maior aversão a risco e alta do dólar, prejudicando a rentabilidade. O preço das commodities tem tido muita volatilidade, e tendência de queda no curtíssimo prazo, as contas externas tem tido projeções ruins, e o noticiário não traz mais o Brasil no topo das preferências dos investidores. Assim, o Ibovespa não tem conseguido se recuperar e perde terreno.
A expectativa de curto prazo ainda é de incerteza, o que leva o investidor a sair do mercado, ou buscar operações e papéis mais defensivos.
Não vejo ainda nenhuma inversão de tendência, e por enquanto são poucas as oportunidades de compra, mas com a divulgação dos resultados por aqui, aparecerão bons preços, até porque não há nenhuma modificação nas projeções de crescimento econômico no país.
Mauro Giorgi é gestor de recursos autorizado pela CVM