Menos Tensão no Médio Prazo

Os investidores retiraram um ponto de preocupação de curto prazo, o discurso anual do Presidente Obama, State Of The Union, que foi otimista e falou de recuperação da economia e não de “culpa do sistema financeiro”. Mas ganharam talvez uma preocupação de médio prazo com a internação do Presidente Lula ontem à noite. Conforme forem os próximos dias, a campanha do PT pode sofrer bastante, e com isso mudar o panorama desta arrancada inicial do ano eleitoral. O dia é de agenda cheia e com a volatilidade que o mercado tem tido isto significa mais oscilações pela frente. As decisões do FED e do COPOM foram as esperadas. Os comunicados também, sem surpresas, fazendo com que os investidores se voltem para os indicadores da economia para entender quais podem ser os próximos passos, pelo menos do COPOM, já que o FED repetiu que as taxas de juros “excepcionalmente baixas” permanecerão assim por algum tempo.
Na mesa continua a intenção do governo americano de reformar e mudar o sistema financeiro, talvez agora com uma ênfase real de médio e longo prazo, e os problemas que podem se agravar de aversão a risco com os números que países como Grécia e Portugal apresentaram.

O desempenho positivo das bolsas americanas ontem e o discurso do Presidente americano foram os motivos para a melhora das bolsas na Ásia. No Japão alta de 1,6%, liderada pelo setor financeiro. O mesmo ocorreu na Coréia, com alta de 1%. Em Taiwan e Hong Kong altas de 1,4% e 1,7% com os setores de tecnologia e imobiliário aparecendo como destaques. Na China o principal índice fechou estável, com os investidores ainda reticentes quanto o aperto na liquidez na economia. Na Austrália alta de 0,6% com as principais mineradoras recuperando parte das perdas das últimas quatro sessões.

Na Europa os investidores também abriram o dia mais otimistas. A ênfase na recuperação do emprego e da economia no discurso do Presidente Obama, ontem à noite, e as colocações do FED sobre a economia, permitiram que as cotações dos bancos recuperassem parte das perdas acumuladas nos últimos dias. As altas na primeira hora da sessão estavam entre 0,8% e 1% nas principais bolsas do continente. O euro e a libra abriram em alta em relação ao dólar, e o preço do barril de petróleo com pequena elevação, cotado pouco acima de US$74.00. Com a agenda com vários indicadores macroeconômicos e resultados importantes a serem divulgados, os investidores permanecerão atentos e as oscilações positivas tendem a ganhar volatilidade.

Nos EUA o dia ontem foi de maior tranqüilidade. A reafirmação sobre a política monetária aliviou a pressão no sistema financeiro, que mais tarde no discurso do presidente Obama, se sentiu menos pressionado ainda. A tônica do discurso foi para recuperação do emprego e para isso uma política monetária mais “frouxa” é fundamental. No curto prazo tudo fica melhor para o mercado financeiro, mas questão do déficit público do país é grave e algo deverá ser feito ao longo do ano. A agenda hoje traz a divulgação do número de pedidos de auxílio desemprego, com expectativa de 450,0 mil contra 482,0 mil da semana anterior; e o volume de pedidos e entrega de bens duráveis, com expectativa de +2% contra +0,2% do mês anterior, ambos às 11:30. Entre os resultados a serem divulgados destaco AT&T, Astra-Zeneca, Colgate-Palmolive, Kodak, Ford, Motorola, Nokia, Procter&Gamble e Sony, antes da abertura da sessão e após o fechamento, Microsoft e Amazon.

Por aqui os investidores repercutirão a decisão unânime, já esperada do COPOM de manter as taxas de juros, a rápida duração da reunião, ao redor de duas horas, o comunicado de que aguardarão mais indicadores da economia para avaliar na próxima reunião, no início da segunda quinzena de março, e uma agenda de indicadores americanos e nacionais. Entre os indicadores nacionais destaco o IGPM de janeiro que deve trazer alguma pressão inflacionária sazonal, a pesquisa de emprego do IBGE com indicadores de desemprego e renda do trabalhador, e a nota de política fiscal do BC com importantes dados sobre as contas públicas nacionais. São números importantes para construir o cenário de 2010, ano eleitoral. Notícias sobre o estado de saúde do Presidente Lula serão importantes.
O mercado de juros vai oscilar conforme os indicadores acima colocados e pode ser influenciado no longo prazo pelo comunicado do COPOM.
O mercado de câmbio continua pressionado pelas contas externas, mas pode ter um alívio com o cenário internacional, apesar da aversão a risco ter voltado à pauta. Além disto, a política de acumulo de reservas por parte do BC em um momento de alta da moeda americana causa estranheza pelo alto custo e pela falta de necessidade, pois pode pressionar a inflação.
O mercado de ações pode enfim ter um dia mais calmo, pelo menos na abertura. Os indicadores americanos são importantes, os nosso também, e, além disto, há a divulgação do primeiro resultado importante entre os bancos locais, o Bradesco solta seus resultados antes da abertura dos mercados.
Os investidores podem buscar alguns preços atrativos na bolsa à medida que o cenário fica mais claro no médio prazo, no entanto é importante ressaltar que amanhã há uma agenda cheia de indicadores nos EUA, mantendo a volatilidade em alta.

Mauro Giorgi é gestor de recursos autorizado pela CVM

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