Eventos, Decisões e Indicadores
Importantes eventos marcam os próximos três dias nos mercados. Além da cautela natural às vésperas destes eventos, os investidores procuram entender até aonde vai o “problema” chinês, a até aonde vai o temor de novos estouros de bolhas especulativas.
Ontem o economista Nouriel Roubini, famoso por ter sido o primeiro a advertir sobre o mercado imobiliário americano e prever em grande a parte a crise de crédito, fez nova advertência sobre a rápida alta nos preços dos ativos após a saída ainda tênue da crise de 2008/09. Enfim, acredito que estejamos passando por um período de pessimismo natural após a rápida e até surpreendente recuperação dos mercados e de várias economias, inclusive a nossa. É claro que as precauções e advertências têm fundamento, principalmente na China, e também não sou nenhum especialista para contradizer tão célebres e importantes economistas e analistas, mas os investidores são movidos a otimismos incorrigíveis e pessimismos incontroláveis, logo sempre acredito na cautela para decisões de curto prazo.
Mais um dia de baixas fortes na Ásia. No Japão a alta do iene voltou a prejudicar as exportadoras com destaque para Toyota com alguns recalls de seus modelos fora do Japão. A baixa no principal índice da bolsa do país foi de 0,7% atingindo o ponto mais baixo em 5 semanas. Na Coréia baixa de 0,7% também com o principal índice atingindo o ponto mais baixo em 7 semanas. Em Hong Kong baixa de 0,3%, enquanto em Taiwan queda de 0,5% com o principal índice no ponto mais baixo em 8 semanas. Na China queda de 1,1% com o principal índice da bolsa de Xangai fechando abaixo de um importante nível (3,0 mil pontos), no ponto mais baixo em 3 meses. Na Austrália, na volta do feriado a queda foi de 1,6% com o setor de mineração sendo o principal motivo da queda. As principais empresas do setor apresentaram quedas médias de 2,5%. Os investidores permanecem atentos a novos movimentos das autoridades chinesas quanto à redução da liquidez.
Na Europa as principais bolsas voltaram a recuar após as altas de ontem que interromperam uma seqüência de quatro dias de baixas. O setor financeiro volta a ser o grande vilão das quedas. Além da preocupação com os resultados e possíveis novas baixas contábeis, os investidores estão atentos aos indicadores de hoje, e após o fechamento ao comunicado do FED e mais tarde ao pronunciamento do Presidente Barack Obama. Analistas locais acreditam em uma grande correção das altas observadas no segundo semestre do ano passado. O euro volta a recuar diante do dólar na abertura dos negócios, enquanto a libra abriu estável em relação à moeda americana. As commodities abriram em baixa.
Nos EUA a agenda é importante. Às 13 horas a divulgação dos estoques de petróleo e a venda de imóveis novos, com expectativa de 368,0 mil contra 355,0 mil do mês anterior. São indicadores importantes dado o momento da cotação do barril de petróleo, abaixo dos US$ 75.00 e da expectativa da influência do desemprego no mercado imobiliário do país. Às 17:15 será anunciada a decisão do FED sobre a taxa de juros, que deverá ser mantida, mas é quando o mercado olha para as declarações da autoridade monetária americana sobre a economia, e principalmente se haverá indicação de retirada de subsídios ou não. E finalmente no final da noite a haverá o pronunciamento anual do Presidente americano, “State of The Union”, onde o Presidente Obama poderá dar mais detalhes sobre a economia e seus planos de recuperação do emprego e reforma do sistema financeiro. Entre os resultados do dia destaco Abbott Lab, Boeing, Qualcomm, Caterpillar e Hershey. Os investidores permanecem analisando as perspectivas do plano de reforma do sistema financeiro, enquanto aguardam os resultados das empresas que compõem o S&P500, mas cercados de muita cautela e aversão a risco.
Por aqui a agenda traz a divulgação da terceira quadrissemana do IPC-FIPE, onde as chuvas e a sazonalidade de impostos matricula e material escolar, pode elevar a inflação na cidade de São Paulo, e a divulgação do resultado da reunião do COPOM após o fechamento dos mercados. Não se espera nenhuma mudança na taxa de juros, mas se aguarda alguma indicação de como a autoridade monetária vê riscos externos de redução da liquidez.
Os investidores mantêm cautela nos mercados por aqui. As taxas de juros de longo prazo, em patamar acima do que o BC acredita que seja o razoável mostram que somente indicadores inflação consistentemente dentro ou abaixo do centro da meta farão com que os investidores mudem sua atitude. O patamar que o dólar atingiu também demonstra de um lado a prática, os investidores externos estão equilibrados neste início de ano na Bovespa, e do outro lado as expectativas de um déficit elevado em conta corrente e uma dificuldade acima do esperado para financiá-lo. Neste ponto discordo quanto à necessidade de captação deste ano, acho que será fácil no primeiro semestre.
Quanto ao mercado de ações à aversão ao risco e a conseqüente saída de curto prazo do investidor externo já traria naturalmente volatilidade e pressão de venda. Se adicionarmos a grande quantidade de novos fatos e eventos, chegaremos ao comportamento observado no principal indicador da bolsa brasileira. Acredito que não tenha havido inversão de tendência com relação à alta do Ibovespa, mas assim como em outros mercados uma correção importante para um indicador que teve uma alta muito forte em 2009 era algo a se esperar, apesar de poucos terem acertado o timing. Assim, com o início da temporada de divulgação de resultados por aqui, começando com Santos-Brasil após o fechamento, oportunidades importantes podem aparecer.
Mauro Giorgi é gestor de recursos autorizado pela CVM